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Da pré-história da IA ao futuro agora (e mais além) parte I

por Renato Ferreira
Renato Ferreira artigos opinião Vale do Sousa TV
Renato Ferreira
Professor do ensino básico e secundário. Poeta e fotógrafo amador nos tempos livres. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela FLUP e Pós-graduado em Supervisão pedagógica e formação de formadores.

Do computador Hal9000, no filme “2001: Odisseia no Espaço”, aos livros à venda em coautoria entre humanos e um dispositivo de Inteligência Artificial, passaram 55 anos. E o velho chavão «da ficção à realidade» tornou-se real. A sério?

Computador Hal 9000, em “2001: Odisseia no Espaço – IMAGEM: oddlovescompany

Temos tendência a valorizar o resultado em detrimento do processo: quem dá, ainda, valor ao programa de computador que vence o campeão mundial de xadrez; ao relógio que alterna a hora de inverno com a de verão, sem interferência humana; ao reconhecimento facial numa fotografia; à domótica? Tudo isto nos foi entrando casa dentro, pequenas trivialidades reais a ombrear com a ficção. Tão surpreendentemente banais, que nos pareciam ficção. Até se entranharem em nós, no nosso apressado quotidiano que tudo aceita e tudo exige cada vez mais e mais depressa e melhor. Costumo confidenciar, com alguns amigos, que a IA ainda é mais artificial do que inteligência. Porque, como qualquer produto da mente humana, tem falhas, erra, é imprecisa, veja-se o rigor do GPS nalguns percursos rodoviários. Nunca vos aconteceu estarem a viajar sobre uma campina de trigo, a dois quilómetros da estrada? Já ouviram sms no computador de bordo dos vossos automóveis? Já mandaram uma máquina traduzir um documento para uma outra língua e, de novo, para a de origem?

Constitui a IA uma ameaça aos empregos humanos? As linhas de montagem, a especialização das tarefas, a automatização, os código de barras, os QR, simplificaram muitas tarefas, reduziram a necessidade da mão-de-obra humana, mas não deverá ser amanhã que teremos o ócio como principal ocupação da humanidade. Estamos mais perto de ter máquinas capazes de criar programação (auto-programáveis), melhorá-la e corrigi-la, do que sentir, talvez mesmo apenas replicar, emoções. E aí, as profissões que exigem uma componente discursiva conotativa, figurada, que exigem uma comunicação apoiada na metalinguagem, naquilo que não pode ser reduzido a zeros e uns, estarão a salvo de qualquer colonização. Sejam artísticas, comunicativas ou, inclusive, científicas. 

Como medida de prevenção quanto à segurança dos dados pessoais, a Itália acabou de proibir, e ameaça com multa à escala mundial se nada for corrigido, a utilização da última coqueluche, o ChatGPT. Mas há outros perigos à espreita: numa sociedade cada vez mais dominada pelo controlo da informação (tema a desenvolver num próximo artigo), a IA, como a fusão nuclear, é capaz de estar do lado do bem, como do lado do mal. Quer seja a detectar as chamadas fake news, quer a criá-las. Quer ao serviço da luta contra o crime, quer ao serviço das redes criminosas internacionais. O seu próprio criador, Sam Altman, teme a evolução da criatura e até menciona o apocalipse, quem dominar os seus algoritmos conseguirá influenciar o pensamento humano, torná-lo tendencioso face aos debates fracturantes da actualidade. Como acontece de cada vez que algo surge fora do enquadramento tradicional, a regulamentação legislativa está atrasada e, teme-se, talvez não seja capaz de se manter permanentemente actualizada, de forma global, pois as fronteiras não a conseguirão conter.

A Google também quer ter o seu programa de conversa mundana, o seu chatbot Bard. E leva alguma vantagem de fundo em relação à concorrência, já não é o caso em termos cronológicos, há um atraso para corrigir os erros patenteados no lançamento. A empresa, contudo, é a campeã mundial da atomização da curiosidade, do pensamento, da memória. Quando surge uma dúvida numa conversa qualquer, seja em que contexto for, logo há alguém a recorrer ao saber googlizado, com nomes, datas e factos. Para já não referir as «velhas» Siri e Alexa. Claro que as gerações mais novas não se preocupam em reter informação, em articular conhecimentos prévios e recém adquiridos. Para quê? A resposta está sempre ao alcance de um dedo.

Papa Francisco em imagem criada por inteligência artificial
IMAGEM: Reprodução/Twitter

Renato Ferreira

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