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As cabras não querem saber quem é o “GOAT”

por José Pedro Barbosa
Opinião José Pedro Barbosa na Vale do Sousa TV
José Pedro Barbosa
Licenciado em Jornalismo, Comentador de Basquetebol e antigo Maestro. Encontra na Música e no Desporto alguns dos prazeres da vida.

Enquanto uma geração dourada procura deixar a sua marca na História do Desporto, as discussões sobre quem é o melhor de sempre vão dando asas ao tribalismo que domina os adeptos de qualquer modalidade.

Em vez de apreciarmos a grandeza dos feitos e a qualidade dos atletas, sem menosprezar o que outros conquistam, preferimos, de uma forma generalizada, olhar para as derrotas daqueles que lutam incessantemente (na nossa cabeça)  pelo título de G.O.A.T, “Greatest Of All-Time”. 

As contantes batalhas insanas entre quem “defende” Messi ou Ronaldo, LeBron ou Jordan, Serena ou Graf, entre outras, têm tanto de insanidade, como de pura estupidez, com constantes insultos, argumentos cegos e critérios parvos para justificar a sua posição nesta guerra por um posto ficcional. Pegamos no Ténis Masculino como o primeiro exemplo de parvoíce. Durante o Novo Milénio, três nomes dominaram o Ténis Masculino: Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic.

Federer, agora já retirado da modalidade, é um prodígio suíço de uma elegância e classe tremenda, inteligente no movimento dentro dos courts, com uma das melhores “direitas” na história do Desporto. Recordista de vitórias no Torneio de Wimbledon, um dos quatro Grand Slams do Ténis (Open da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open), o tenista tornou-se na cara principal da Modalidade numa geração pós Pete Sampras e André Agassi, com um domínio avassalador no final da década de 2000, especialmente em pisos rápidos.

Nesse período, surgiu, no ténis profissional, um muito jovem espanhol que escrevia com a mão direita, mas jogava com a mão esquerda, de seu nome Rafael Nadal. A hegemonia de Federer foi travada por Nadal, que, à terceira tentativa, conseguiu conquistar o Torneio de Wimbledon batendo o suíço numa final épica, enquanto já dominava, como nunca ninguém tinha visto, os torneios disputados em terra batida, nomeadamente, Roland Garros. A garra, determinação, velocidade e capacidade física são algumas das muitas características que levaram Rafa ao topo do Ténis.

Durante esta rivalidade que encantava os fãs, um jogador sérvio foi alterando os planos, intrometendo-se nesta luta no início da década de 2010, de seu nome Novak Djokovic. Se, inicialmente na sua carreira, era conhecido pela sua fragilidade mental, a verdade é que, atualmente, é reconhecido pela sua força, quer na sua mente, quer no seu físico, sendo o atual recordista de Grand Slams e, aos 36 anos, continua nos lugares cimeiros do Ténis Mundial, vencendo, em 2023, o Open da Austrália e Roland Garros, sendo que, este domingo, foi finalista vencido em Wimbledon, derrotado pelo espanhol Carlos Alcaraz, de apenas 20 anos de idade.

Agora chegamos à questão que inquieta todos os tribalistas: Quem é o melhor de sempre? A resposta, acreditem ou não, é baseada numa série de perguntas. O que é isso interessa? Como é que vamos avaliar o melhor de sempre? Será pelo número de vitórias? Estilo de jogo? Gosto pessoal? Dias como nº1 do Ranking ATP? Vitórias e Derrotas em confronto direto? Simpatia?

Há muitos parâmetros que podem definir o que nós consideramos como “melhor”, mas muito virá sempre da nossa geração, daquilo que vimos primeiro, de quem nos cativou e nos chamou à atenção, nos fez apaixonar por determinado desporto. Existe sempre irracionalidade no meio da insanidade desta discussão. No Ténis, como o exemplo escolhido para este artigo de opinião, falamos de um Desporto Individual (não individualista) em que os atletas jogam em pisos diferentes, foram criados em países diversos, com virtudes e defeitos ímpares.

Se nem conseguimos estar de acordo em relação ao melhor de uma geração, como é que podemos sequer considerar alguém, de forma inequívoca, como o “melhor de sempre”? Vamos ignorar tudo o que a geração de Sampras e Agassi fez? O domínio de Bjorn Borg na sua curta carreira? O impacto de Rod Laver antes da era dos Grand Slams?

E reparem, só estou a escrever sobre Ténis Masculino, onde a conversa já é complexa o suficiente e repleta de diferentes respostas e soluções para problemas que não deviam existir. Imaginem quando falamos de Desportos Coletivos, em que o contexto das equipas, treinadores, colegas, tem uma influência ainda mais intricada no desfecho e análise de uma carreira.

Vamos comparar eras? Tecnologias? “Ui, se o Eusébio jogasse nos dias de hoje, nem um golo marcava, na altura nem sabiam defender”, diz um jovem que nunca viu o “Pantera Negra” jogar, enquanto outros que o viram dirão “coitado do Ronaldo, nunca aguentaria um jogo tão físico, ia passar o jogo todo no chão”.

Somos cegos perante aquilo que vimos na nossa infância, a quem nos fez apaixonar, idolatrar e ver aquele desporto. É uma ilusão bonita, que perdura ao longo da nossa vida, mas não deve ser o que guia a nossa forma de estar.Não há necessidade de defender alguém, sem qualquer motivo de razão, quando muitos merecem reconhecimento. Sim, podemos gostar mais de um atleta do que outro, somos humanos, mas será mesmo necessário rebaixar, odiar alguém, e ser mais um peão nestas discussões parvas?

Vivemos numa geração incrível no Desporto, com momentos únicos no Ciclismo, Ténis, Futebol, Basquetebol, Atletismo, Natação, entre muitos e muitos outros. Está na altura de olhar para o presente, agradecendo o passado e preparando o futuro, num trio que deve andar de mãos dadas e não em constante discussão.

Como acontece durante o nosso tempo neste mundo, muitas vezes só damos o devido apreço às coisas quando elas não estão cá. Só demonstra mesmo como o Desporto é o espelho da Sociedade, do bom e do mau. Sigam o exemplo da cabra, um animal inteligente, que não quer saber quem é o “GOAT”, e vivam curiosos, despertos, com apreço por tudo e todos, sem menosprezar muitos pelo “amor cego” de um.
 

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