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O Magriço de Celorico de Basto

por Joaquim Luís Costa
Joaquim Luís Costa opinião Vale do Sousa TV
Joaquim Luís Costa
Licenciado em Ciências Históricas, mestre e doutor em Ciência da Informação. Historiador.

Com a intenção de comemorar os 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões, destaco o Magriço, um dos “Doze de Inglaterra”.

Como referido em anteriores opiniões, Luís de Camões teve ligações de amizade e/ou literárias com personalidades que nasceram e/ou viveram na nossa sub-região. Neste âmbito, realço, agora, Álvaro Gonçalves Coutinho (?-1445), popularmente conhecido como o Magriço.

Álvaro Gonçalves Coutinho era filho de Gonçalo Vasques Coutinho, fidalgo da comarca da Beira, tendo nascido na vila de Penedono. Apesar das suas ligações a Penedono, diversos autores expõem que chegou a viver na casa da Laje, na freguesia de Gémeos, Celorico de Basto, e foi sepultado na capela-mor da igreja paroquial. Um seu irmão, Fernão Coutinho, foi o 3.º Senhor de Basto, reforçando a ligação da sua família ao território.

O cognome o Magriço deriva do seu aparente aspeto frágil e franzino. Todavia, compensava a sua condição física com uma enorme valentia. Ainda novo, distinguiu-se na batalha de Trancoso (29 de maio de 1385), quando o exército português venceu o exército castelhano. A sua valentia também foi posta à prova quando doze donzelas da corte inglesa foram gravemente ofendidas…

Segundo reza a história (ou a lenda, pois há muito de fabuloso), doze damas inglesas foram acusadas por doze cavaleiros compatriotas de falta de honra. Perante o insulto, as damas pediram aos seus familiares que as defendessem, mas estes recusaram devido à fama dos doze cavaleiros serem grandes guerreiros. Então, as damas apelaram ao duque de Lencastre, sogro do rei D. João I de Portugal, para que as ajudasse a encontrar cavaleiros portugueses que as defendessem, devido às qualidades cavaleirescas do nosso povo. O pedido foi aceite, imediatamente, por doze cavaleiros. O navio que transportou os cavaleiros partiu do Porto, no entanto, um deles, Álvaro Gonçalves Coutinho, decidiu ir por terra – passando por Leão, Castela, Navarra e Flandres –, para alcançar grandes glórias, até se juntar, mais tarde, aos restantes onze cavaleiros portugueses. No dia do duelo, já em Inglaterra, quando os cavaleiros nacionais se alinharam perante os doze cavaleiros ingleses, notaram a desigualdade entre as duas partes, pois só estavam onze portugueses. Quando o duelo estava quase para se iniciar, surge de rompante um cavaleiro: o Magriço! E a contenda foi ganha pelos doze destemidos cavaleiros nacionais!

Este episódio foi eternizado por Camões n’Os Lusíadas, no canto VI, da estrofe 42 à 69, que terá recolhido, provavelmente, no manuscrito Crónica Breve das Cavalarias dos Doze de Inglaterra.

61 Mastigam os cavalos, escumando,
Os áureos freios, com feroz sembrante;
Estava o Sol nas armas rutilando,
Como em cristal ou rígido diamante;
Mas enxerga-se, num e noutro bando,|
Partido desigual e dissonante
Dos onze contra os doze, quando a gente
Começa a alvoroçar-se geralmente.

62 Viram todos o rosto aonde havia
A causa principal do reboliço;
Eis entra um cavaleiro, que trazia
Armas, cavalo, ao bélico serviço;
Ao Rei e às damas fala, e logo se ia
Pera os onze, que este era o grão Magriço.
Abraça os companheiros, como amigos,
A quem não falta, certo nos perigo

Com base no narrado, Celorico de Basto e a sub-região do Tâmega e Sousa têm motivos para celebrar Camões, porque o Magriço é uma figura histórica e lendária deste concelho e território. 

Como sugestão de leitura, recomendo a monografia Os Doze de Inglaterra, da autoria de Artur de Magalhães Basto, editada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

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