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Padre Vitorino de Sousa Alves: A exigência do pensamento e a responsabilidade da memória de um penafidelense

por Rafael Ferreira
Rafael Ferreira
Rafael Ferreira
Professor na área das artes e tecnologias, licenciado em Educação, Comunicação Audiovisual e pós-graduado em Tecnologia Educativa. Apaixonado por cinema, imagem, animação e artes.

A história cultural portuguesa está repleta de figuras cuja estatura intelectual contrasta com a fragilidade da memória pública que delas subsiste. O Padre Vitorino de Sousa Alves inscreve-se plenamente nesse quadro: um pensador de exceção, reconhecido no meio académico nacional e internacional, cuja obra permanece, ainda hoje, insuficientemente conhecida fora dos círculos especializados — incluindo na terra onde nasceu.

Vitorino de Sousa Alves nasceu na freguesia de Guilhufe, concelho de Penafiel, a 26 de julho de 1913, e faleceu em Braga, a 8 de janeiro de 2002. Ingressou na Companhia de Jesus a 7 de setembro de 1935, iniciando uma formação intelectual particularmente exigente. Estudou Humanidades no Convento da Costa, em Guimarães, licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Filosofia de Braga e concluiu a formação teológica na Universidade Gregoriana de Roma, uma das mais prestigiadas instituições académicas da Igreja Católica.

Padre Vitorino de Sousa Alves

Em 1957, defendeu a sua tese de doutoramento sobre a Dialéctica do Espaço e do Tempo, trabalho que marca de forma decisiva a orientação do seu pensamento: um diálogo rigoroso entre Filosofia, Ciência e Lógica, atento aos problemas fundamentais do conhecimento moderno. Logo após o doutoramento, iniciou atividade docente em Braga, lecionando Cosmologia e Filosofia das Ciências, e foi igualmente responsável, durante dois anos, por cursos livres no Centro de Estudos Humanísticos, então anexo à Universidade do Porto.

Na Faculdade de Filosofia de Braga, o seu nome ficou particularmente associado às cadeiras de Lógica Formal e Epistemologia Geral, áreas em que se afirmou como um dos mais sólidos e inovadores docentes do panorama filosófico português do século XX. A sua formação cultural era, de facto, invulgar: dominava com profundidade autores da Matemática, da Física, da Lógica e da Filosofia, articulando de modo raro tradições clássicas e pensamento contemporâneo. O seu conhecimento de Aristóteles, Tomás de Aquino e Pedro da Fonseca convivia com uma leitura rigorosa de Kant e Hegel, bem como de autores centrais da filosofia e da ciência modernas, como Bertrand Russell, Edmund Husserl, Teilhard de Chardin, Ludwig Wittgenstein e Karl Popper.

O pensamento de Vitorino de Sousa Alves não se limitava à erudição acumulativa. Era, essencialmente, o resultado de um diálogo crítico e exigente com os grandes problemas da história do pensamento filosófico e científico, procurando compreender a natureza, o valor e os limites do conhecimento humano. Essa singularidade foi reconhecida por Lúcio Craveiro da Silva (1914-2007), ele próprio uma referência maior da filosofia portuguesa, que, na História do Pensamento Filosófico Português, identificou Vitorino de Sousa Alves como “o autor mais representativo na Filosofia das Ciências entre nós”.

Segundo Lúcio Craveiro da Silva, essa centralidade manifesta-se de forma particularmente clara no livro Ensaio de Filosofia das Ciências (Braga, 1998), onde o autor analisa criticamente as fundamentações lógicas e filosóficas da Física Teórica, da Cosmologia, da Matemática e da Lógica Formal, enfrentando os problemas mais radicais colocados pela ciência moderna à filosofia. O que distingue estes estudos — sublinha Craveiro da Silva — é a conjugação rara entre um domínio profundo das ciências exatas e uma visão filosoficamente atualizada, capaz de superar tanto o escolasticismo repetitivo como a adesão acrítica a modas intelectuais.

O mesmo rigor se verifica no seu contributo para a Lógica, área em que foi pioneiro em Portugal. Introduziu de forma sistemática o ensino da Lógica Matemática ou Simbólica, estudando os sistemas proposicionais, funcionais, de classes e de relações, bem como os limites dos sistemas dedutivos à luz dos teoremas de Gentzen e Gödel. Na Lógica Clássica, propôs um novo sistema dedutivo para a teoria silogística, reduzindo todos os modos válidos a dois axiomas fundamentais — Barbara e Darii — demonstrando os restantes como teoremas, num exercício de notável elegância conceptual.

Como jesuíta e homem da Igreja, Vitorino de Sousa Alves nunca entendeu o diálogo entre Fé, Filosofia e Ciência como um campo de confronto estéril. Pelo contrário, a sua obra revela uma constante preocupação em integrar os avanços científicos numa visão filosófica ampla, capaz de responder às questões mais profundas colocadas pela mente humana, numa perspetiva autenticamente cósmica da realidade.

Foi professor da Universidade Católica Portuguesa, colaborador regular da Revista Portuguesa de Filosofia, e o seu nome permanece inscrito na toponímia da cidade de Braga, através da Rua Padre Vitorino de Sousa Alves, na freguesia de Fraião. Este reconhecimento contrasta, contudo, com a relativa discrição da sua memória pública em Guilhufe e no concelho de Penafiel, facto que levanta uma interrogação legítima sobre a forma como o território valoriza o seu património intelectual.

Joaquim, Vitorino e Manuel os três irmãos na Páscoa de 1970 na casa deste último.

No ano em que se assinalou o centenário do seu nascimento, o blogue “Penafiel Terra Nossa” prestou-lhe uma homenagem justa, recordando-o como um dos mestres mais insignes da Filosofia Portuguesa. A esta evocação junta-se também o testemunho de antigos alunos, como Manuel Luís Lopes Batalha, que sublinha não apenas a excelência científica do professor, mas a sua humanidade pedagógica: a clareza da exposição, a capacidade de motivar, a disponibilidade permanente para esclarecer dúvidas e a presença viva — quase cénica — com que transformava a sala de aula num espaço de verdadeiro encantamento intelectual.

Recordar o Padre Vitorino de Sousa Alves não é um exercício de nostalgia académica. É um dever cultural. A sua obra demonstra que, a partir de uma freguesia do interior, foi possível construir um pensamento filosófico de alcance universal, dialogante com as ciências e atento às questões mais radicais do conhecimento humano. Valorizar a sua memória é, em última análise, reconhecer que a grandeza intelectual também faz parte da identidade de Penafiel — e que essa herança não deve permanecer no silêncio.

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