Rafael Ferreira
Professor na área das artes e tecnologias, licenciado em Educação, Comunicação Audiovisual e pós-graduado em Tecnologia Educativa. Apaixonado por cinema, imagem, animação e artes.A transição energética é hoje uma realidade incontornável. Em Portugal, a energia solar assume um papel central nesse caminho, mas importa dizer, sem rodeios, que nem toda a energia dita “verde” é, na prática, sustentável. A forma como estamos a ocupar o território com grandes centrais solares levanta questões sérias que não podem continuar a ser ignoradas.

Em 2026, o debate divide-se entre dois modelos bem distintos: os megaprojetos solares, apresentados como solução rápida e eficiente, e a produção descentralizada em telhados, mais próxima das pessoas e do território. Ambos produzem energia limpa. Mas os impactos que deixam são profundamente diferentes.
As grandes centrais solares contribuem, sem dúvida, para cumprir metas nacionais e reforçar a matriz energética. No entanto, fazem-no muitas vezes à custa da paisagem, da biodiversidade e de solos agrícolas de elevada aptidão. É aqui que reside a contradição: descarbonizamos o sistema elétrico enquanto artificializamos o território. A paisagem muda, os ecossistemas fragmentam-se e perde-se algo que não se recupera com relatórios técnicos ou compensações administrativas.
É precisamente por isso que defendo uma aposta clara e estratégica na energia solar em telhados. Produzir energia onde ela é consumida faz sentido técnico, económico e ambiental. Aproveitam-se superfícies já construídas, reduzem-se perdas na rede elétrica e promove-se uma maior autonomia energética de famílias, empresas e instituições.
Do ponto de vista económico, os benefícios são evidentes: reduções significativas na fatura da eletricidade, valorização dos edifícios e um retorno do investimento cada vez mais rápido, especialmente com os incentivos públicos ainda disponíveis. Mas há também um ganho menos quantificável e, para mim, fundamental: não se destrói território para produzir energia.
A integração de painéis solares na arquitetura — incluindo telhas fotovoltaicas ou soluções discretas em edifícios históricos — demonstra que inovação e respeito pelo património podem caminhar juntos. Quando associados a telhados verdes, os benefícios multiplicam-se: maior eficiência energética, melhor gestão da água da chuva, mitigação do calor urbano e contributo real para a biodiversidade.

Nada disto dispensa planeamento rigoroso. Instalações mal executadas são um risco, sobretudo num contexto de fenómenos climáticos extremos. Mas estes são desafios técnicos resolúveis. Já a perda de solo natural e de paisagem é definitiva.
Portugal precisa de energia solar. Mas precisa também de equilíbrio, de visão territorial e de coragem política para dizer que nem tudo o que é grande é melhor. Os megaprojetos podem ter um papel transitório. A verdadeira sustentabilidade constrói-se, porém, edifício a edifício, comunidade a comunidade.
A transição energética não pode ser feita contra o território. Tem de ser feita com ele.
Produzir energia sem destruir a paisagem não é um luxo ambientalista — é uma obrigação ética para com o futuro.

Fotografias: Freepik (fotografias meramente ilustrativas)