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Façam Natal, sem o dizer

por José Carlos Carvalheiras
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José Carlos Carvalheiras
Sociólogo, autor de várias obras sobre identidade cultural e memória coletiva, cronista, ensaísta, guionista de teatro e cinema

Recentemente, num evento de beneficência, ocorreu algo que eu já tinha visto em campanhas eleitorais: a exibição da solidariedade. Vê-se cada vez mais.

Até já fazem sátira disso. Vi num cartoon alguém a depositar uma esmola num chapéu dum pedinte e a fotografar-se no ato.

Já agora, um abominável exemplo desses foi aquele dum político demagógico a fingir que ajudava a apagar um fogo florestal.

Não é só marketing, nem só propaganda, não é só vaidade, nem só egocentrismo. É exibicionismo. É fanfarronice.

E muita gente aplaude. A exibição é entretenimento. A propósito, um dia destes citei Tom Waitts noutro contexto e volto a fazê-lo aqui (ainda) com maior preceito: “as pessoas não querem saber se lhes estão a dizer a verdade ou a mentira, desde que isso as entretenha”. Ora, o exibicionismo entretém.

Parece claro que a exibição pública de um ato de apoio a alguém deixa de ser um ato de beneficência. É um aproveitamento pessoal, político, seja qual for a motivação que está por trás do exibicionismo.

Deixa de ser solidário e desinteressado, pois quem assim age está a obter ou a tentar obter retorno, dividendos, vantagens, etc.

Vi naquele tal evento de solidariedade, por sinal bastante concorrido, alguém em cima dum palco a apontar para o necessitado de um equipamento para melhorar a sua parca qualidade de vida e dizer “eu pago o que falta”. 

Por vezes a vontade de ajudar é tal que não medimos os gestos, nem a exibição. Mas há casos bem calculados, exibições oportunistas. Fica sempre a dúvida. Mais vale o recato, o donativo genuíno, a oferta anónima ou silenciosa.

Hoje em dia, abundam os anúncios de partidos e outras organizações que, muito bem, organizam campanhas de solidariedade. Anunciam nas redes sociais a angariação de bens não perecíveis para melhorar a vida de quem mais precisa. Mas…

Em pequeno eu ouvia nesta «minha» Lousada contar que uma comerciante de padaria do terceiro quarto do século passado fazia benemerência sem dar nas vistas. No início da noite, sacos com as sobras do dia eram anonimamente colocadas na porta de quem mais necessitava. Sabia-se que era ela. Mas nunca confirmou. Outros tempos. Tempos genuínos, épocas de atos desinteressados.

Façam Natal, sem o dizer. Como fazia a Justininha Padeira.

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